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Jaulas Vazias - Tom Regan

Prefácio à edição americana
Jeffrey
Moussaieff Masson
Este livro é, na minha opinião, a melhor introdução
ao tópico Direitos Animais já escrita. Ninguém
fez mais do que Tom Regan para articular o que significam – e
deveriam significar – os direitos animais. Reconhecido mundialmente
há décadas como o principal porta-voz do movimento pelos
direitos animais, Tom Regan sempre teve uma visão radical, no
sentido original da palavra: chegar à raiz. É isso que
lhe possibilita condenar, em bases puramente morais, todo e qualquer experimento
com animais, qualquer que seja o chamado "benefício" desses
experimentos para os humanos – posição que eu endosso
seriamente e que ouvi expressa com mais eloqüência primeiro
por Tom Regan.
A filosofia sobre animais de Tom Regan é original na própria
essência. Não depende de nenhum sistema anterior. Não
está vinculada às doutrinas do utilitarismo ou a qualquer
outro ponto de vista tradicional. É o produto de uma rara combinação
de razão e emoção. Isso é o que faz Tom
ser tão admirado por pessoas que se importam com os animais; é também
o que faz este livro tão revigorante. Destas páginas
transbordam idéias profundas, expostas com clareza e simplicidade.
Apesar de escrito por um filósofo, você não precisa
ser formado em Filosofia para entender e apreciar este formidável
livro.
Tom atualiza o que talvez seja o dito mais famoso (merecidamente)
do movimento pelos direitos animais, apresentado há muito tempo
por Jeremy Bentham: “A questão não é 'Eles
podem raciocinar?' nem 'Eles podem falar?',mas 'Eles podem sofrer?'" E
acrescenta uma coisa igualmente importante, porém não
reconhecida até então. A questão não é apenas "Os
animais podem sofrer?", mas "Eles são sujeitos-de-uma-vida?" Esta é uma
daquelas frases que ficam em nossas cabeças depois de muito
tempo que a lemos. Conforme ela vai sendo absorvida, você vai
notando que foi exposto a uma idéia nova, a um daqueles insights com
potencial para mudar uma vida. Animais têm passado, uma história,
uma biografia. Eles têm histórias. Minks e ursos, elefantes
e golfinhos, porcos e galinhas, gatos e cães: cada qual é um
ser único, e não algo descartável.
Pense nas várias implicações: animais têm
mãe e pai, em geral têm irmãos; têm amizades,
uma infância, juventude, maturidade. À semelhança
dos humanos, eles passam por ciclos de vida (o psicanalista Erik Erikson
construiu sua reputação descrevendo essas fases na vida
dos humanos, mas elas têm igual importância na vida dos
animais). Além disso, como afirmou Tom – e aqui vai outra
daquelas esclarecedoras frases que nunca vão deixar você sossegado
(por exemplo, mordendo-lhe a consciência) – a vida dos
animais pode ser melhor ou pior para eles, importem-se ou não
os outros com isso.
Adversários de Tom costumam dizer que não é possível
sabermos o que deixa um animal feliz. Mas, essa afirmação é um
absurdo, pois nada pode ser mais fácil de saber. Uma vaca quer
viver, amamentar seu bezerro, ficar ao ar livre, num mundo natural
com vento, sol e outras coisas naturais. Uma vaca é feliz quando
faz o que vacas evoluíram para fazer: ter amigos, família – e
uma vida. Não uma morte. É isso o que uma vaca
quer fazer; isso é o que a deixa feliz. Quando você se
pergunta qual a pior coisa que pode acontecer na vida de qualquer animal,
conclui: uma morte prematura. Então a filosofia de Tom nos diz
que precisamos fazer tudo que pudermos para garantir que nenhum animal
morra, a menos que a morte seja natural ou necessária (inclusive
por motivos de piedade, que é o caso da eutanásia).
Desembarace todas os complexos desdobramentos dessa simples afirmação
de Tom, e descubra estar fazendo uma viagem intelectual a lugares que
talvez nunca tenha pensado em visitar. Você poderá se
deparar com implicações que talvez nunca tenha considerado,
como aconteceu comigo logo depois de ler o livro do Tom. Ao fim de
muita pesquisa, minha família achou que a perua Volvo Cross-Country
fosse o melhor carro em termos de segurança para as crianças
(e nós temos duas crianças pequenas). Onde eu vivo (Nova
Zelândia), o estofamento da perua só é feito em
couro. Eu não estaria levando a sério os insights de
Tom Regan se apoiasse a matança de uma dúzia de vacas
por causa do meu carro, certo? De jeito nenhum. Fora de cogitação,
para mim.
Agora pense um pouco em ovos. Como são tratadas as galinhas
que produzem ovos? Quanto crédito eu poderia dar às afirmações
daqueles que lucram com a venda de ovos? E de quem são esses
ovos, aliás? Se eu levasse as idéias de Tom a sério,
mas continuasse a comprar ovos, será que não estaria
incentivando práticas em que se mata, rotineiramente, os animais
que não botam ovos com a freqüência exigida? Para
começo de conversa, eu nem preciso de ovos! Como é que
alguém pode justificar o ato de aterrorizar e matar animais
inocentes? Se galinhas são “sujeitos-de-uma-vida”,
minha decisão não estaria mostrando respeito por elas.
Se a vida delas vai bem ou mal, minha decisão colaboraria para
seu bem-estar ou o atrapalharia? Chega de ovos!
Não tenho certeza, mas creio que Tom tenha sido o primeiro
a me fazer perceber que tirar a vida de um animal, qualquer um, é uma
coisa importante, um momento muito significativo que não deve
ser visto com leviandade. Não devemos nos esconder atrás
das palavras, nem usar termos obscuros e imprecisos, na tentativa de
disfarçar o que fazemos. Agora mesmo, enquanto escrevo, americanos
se ocupam exatamente disso, de matar pessoas enquanto falam sobre choque,
pavor e recursos militares. Neste livro, Tom explica que devemos usar
palavras que todos compreendam e no modo como elas sempre foram usadas
e compreendidas. Ele não vai admitir o tipo de enganação
que acabo de indicar, especialmente quando praticado por gente que
abusa de animais e se esconde atrás da retórica do "tratamento
humanitário" e “manejo responsável".
Tom nos chama constantemente de volta aos nossos melhores instintos.
Estou convencido de que os animais, todos eles, sentem amor, de uma
maneira parecida com a dos humanos. Sei que Tom concorda comigo. E
aqui está o livro dele, escrito com amor, pedindo que façamos
só uma coisa, mas uma coisa radical: que vivamos de modo a mostrar
respeito pelos animais mesmo quando nos esforçamos para viver
de modo a mostrar respeito uns pelos outros. Leia este livro e veja
se não vai acabar convencido de que esta é a grande esperança
para nosso planeta nesse perigoso momento da sua existência.
Tom Regan, Professor Emérito de Filosofia da Universidade da
Carolina do Norte, é reconhecido mundialmente comoum dos maiores
nomes da Bioética, especialmente da teoria dos direitos
animais. Vegetariano há 30 anos, seus numerosos escritos
e livros têm marcado o movimento em defesa dos direitos animais.
Publicou, entre outros, The Case for Animal Rights e Animal
Rights and Human Obligations (organizado juntamente com Peter
Singer).

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Tom Regan será palestrante do Congresso
Vegetariano Brasileiro e Latino-americano
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