Não se faz Ciência sem pressupostos a partir dos quais são formuladas questões para que o cientista responda. É por esta razão que na Ciência moderna – na qual predomina uma visão essencialmente mecanicista (reducionista, analítica) - os cientistas acabam por desconsiderar o fenômeno que estão investigando em sua totalidade. A Ciência moderna é ainda fortemente marcada pelo antropocentrismo e pela valorização das formas pragmáticas do conhecimento. Dentre as inúmeras práticas científicas que se encontram em perfeita consonância com essa visão de mundo, destaca-se a vivissecção – o uso de animais vivos em experimentos – a qual tem provocado inúmeros impactos que se expressam nos mais variados níveis (individual, ecossistêmico) e dimensões (ética, cultural, política etc).
Nesta palestra serão discutidos os fundamentos epistemológicos que explicam a falibilidade dos chamados “testes” em animais e serão citados alguns exemplos de fracassos (resultados falsos ou não conclusivos, por exemplo) que ameaçam tanto a saúde humana, quanto a de inúmeros outros seres que compõem a chamada biosfera.
No que tange à saúde humana, será enfatizada, em especial, a questão da segurança dos alimentos testados em animais. Pesquisas em áreas relativamente novas, como a biodisponibilidade de nutrientes, podem gerar uma interminável quantidade de experimentos em animais, pois constatou-se que todas as interações que podem ocorrer entre nutrientes e outros fatores vão se refletir nos processos de absorção e metabolismo destes.
Pela importância dessas interações, há uma necessidade incessante de novos estudos, isto é, as respostas acabam sendo as premissas para novas perguntas, e os cientistas raramente se questionam se o pouco avanço que algumas áreas experimentam não se deve exatamente ao tipo de pergunta que se faz, ou seja, as perguntas feitas podem estar erradas e não apenas as respostas obtidas. Isso, é claro, está ligado ao fato de que se usa um paradigma mecanicista - no caso a experimentação animal - para estudar questões que são sistêmicas.