Grande como coração de mãe. Assim foi o 2o Congresso
Vegetariano Brasileiro, realizado no final de setembro no UniBH, em Belo Horizonte. Plural,
diversificado, atual, abriu espaço para todas as vertentes e tendências do
movimento: ativistas em defesa do vegetarianismo e direitos animais,
ecologistas, culinaristas, profissionais da área de medicina e nutrição, e
pessoal ligado à ioga, terapias diversas e facções religiosas colocaram em dia
as novidades e trocaram experiências em cursos, oficinas e palestras.
Abertura do Congresso no Campus Diamantina
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O encontro, organizado por voluntários da Sociedade Vegetariana Brasileira
(SVB) e pelo curso de Nutrição do Uni-BH, teve cem por cento de apoio dos convidados, que bancaram as
próprias passagens, estadia e até material para as oficinas culinárias. Se
faltou patrocínio e verba, vale dizer que sobrou ânimo dos participantes. “A
rede de estusiastas está crescendo”, falou Dolores Montesó, do Projeto
Terrapia, grupo carioca que ofereceu delícias da comida viva para muitos dos
500 participantes que tiveram o privilégio de ouvir especialistas, debater
temas ligados ao meio ambiente, direito animal e ética; além de, claro,
confraternizar.
Se teve novidade em relação ao primeiro Congresso Vegetariano, realizado em São Paulo, em 2006?
Várias. “Na época a SVB contava com poucos grupos; hoje são quase 30. Antes a
SVB estava se estruturando; agora já está no mapa”, avalia Marly Winckler,
presidente da associação. Segundo ela, nutricionistas e outros profissionais
das áreas de saúde e nutrição foram mais uma vez brindados nesse encontro, pois
cerca de cem nutricionistas foram formados no curso de Capacitação Técnica em Dieta Vegetariana,
sob a coordenação do Departamento de Medicina e Nutrição da SVB. “Acho que a
formação desses profissionais em alguns anos vai fazer a diferença”, comemora
Marly, que prevê a realização desse mesmo curso em outros eventos.
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“Raros profissionais trabalham com dieta vegetariana e é difícil ter acesso
aos dados”, avalia Eric Slywitch, coordenador do Departamento de Medicina e
Nutrição, que falou sobre como detectar e suprimir carências de vitaminas e
minerais (B12 e ferro, principalmente), cuidados na primeira infância e mitos
alimentares, como o clássico mito da (falta de) proteína. O especialista em
Nutrologia percebe uma nítida mudança na área médica: “hoje há mais
receptividade ao vegetarianismo”. Um interesse que se reflete, inclusive, nos
inúmeros convites que recebe para falar em encontros e congressos.
Para um tempo de paz
Quem teve oportunidade de assistir a palestra Educação ambiental e
vegetarianismo – cami nhos para uma conduta ética certamente saiu do
Congresso inspirado a divulgar a necessidade urgente de pensarmos na criação de
novos paradigmas para manter a vida na Terra. Paula Brügger, coordenadora do
Departamento de Meio Ambiente da SVB, bióloga e professora da Universidade
Federal de Santa Catarina, amarrou com perfeição as perigosas relações entre
produção de carne, consumo irresponsável e sustentabilidade do planeta.
“Vivemos hoje como a pessoa que come salgadinhos e toma refrigerante o dia
inteiro, mas se sente segura porque tem uma ambulância na porta”, compara. O
problema é que o hospital não está mais dando conta de tanto estrago... Uma das
soluções? Consumo ético. Sim, enquanto houver mercado para todo o lixo do
alimento industrializado, haverá produção e comércio. Cabe ao consumidor,
apoiado em suas leis, mudar o rumo dessa história. E cabe às escolas ajudar na
formação de futuros cidadãos, mostrando que tudo está interligado. “Não adianta
apenas ensinar a separar lixo reciclável e achar que isso é educação
ambiental.”
Milene
Galuppo Mattar,
autora de uma torta viva
que enfeiticou os paladares:
“Hoje as
pessoas se
surpreendem com o
simples, com o doce sem açúcar”.
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Natália Chede
apresenta
pratos com tofu
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Dr Alberto Gonzalez
na cozinha viva
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Se depender da força da fala da Paula e demais palestrantes, a mudança de
paradigmas tem tudo para começar na mesa. “Estamos com a faca e a berinjela na
mão”, brincou Alberto
Gonzalez, autor do livro Lugar de Medico é na Cozinha.
Na concorrida palestra O câncer: uma doença que nos ensina a viver,
lembrou que as doenças são respostas ao consumo desmesurado de alimentos
artificiais e de um modo de vida agressivo ao frágil e belo mundo das células,
que são “feitas de terra e antenadas com o céu”.
Equipe SVB
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Estande da SVB
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Para o médico, o novo hoje é o resgate do antigo, tanto na alimentação,
quanto na engenharia, na arquitetura e na relação com o meio ambiente. É a
volta à agricultura orgânica, ao uso da força dos ventos, à construção com
barro e p or aí vai. “Isso não é ser natureba ou hippie, é estar de acordo com a
própria natureza”, diz Alberto. Ana Branco, pesquisadora do Biochip e principal
difusora da alimentação viva, faz coro: “Queremos entrar num tempo de paz. E o
primeiro passo é ter paz interior”.
O peso da informação
Silvana Andrade acredita que precisamos “informar para transformar” e lembra
que “se um evento não saiu na mídia, não aconteceu”. Motivada por esse princípio,
anunciou o lançamento da Agência de Notícias dos Direitos Animais (Anda), que
vai alimentar a mídia com dados, informações, uma biblioteca virtual e
sugestões de pautas sobre vegetarianismo e direitos animais. Para Silvana, se a
Anda já estivesse acontecendo quando a Lei Arouca passou no Congresso, ao menos
teríamos oportunidade de abrir um amplo debate sobre vivissecção. Enquanto
isso, debatemos essa e outras questões dentro do próprio movimento. Foi o que
aconteceu nas salas destinadas ao ativismo: “A troca de informações alimenta
positivamente os grupos para futuras ações, sejam elas manifestação de rua,
exibição de filmes, panfletagem ou no trabalho de ativismo educativo”, avalia
Silvana.
Uma das novidades animadoras foi a presença de Diego Yshizuka, que veio do
Paraguai para ver como se organiza um encontro nacional e fazer contato com os
ativistas brasileiros. Isso porque ele e um grupo de jovens de Assunção acabam
de formar a primeira sociedade vegetariana do Paraguai.
Sem muito barulho, o movimento vegetariano vai se
ampliando e abrindo os braços para acolher novos grupos e iniciativas bacanas
que ajudam a dar sustento para a causa, como as empresas presentes na Feira Veg
Cultura. Os estandes apresentaram desde roupas produzidas com garrafa PET até
produtos de limpeza ecologicamente corretos. No espaço da aromalandia, uma
menina linda chamada Tiare Rodriguez (ver foto abaixo) explicava as
propriedades de óleos essenciais e vegetais, como o óleo de babaçu e germe de
trigo. Em outro estande uma especialista falava sobre os benefícios da
colonterapia e em outro estava exposta uma maquina de preparo do leite de soja.
Além disso, muitos livros e camisetas engajadas estavam à mostra – no estande
da SVB além de informações e filiações foram vendidos muitos livros,
camisetas e adesivos.
Cozinha do barulho
Mais uma vez o movimento raw food (ou culinária viva) marcou presença
no Congresso da SVB. Boa parte das oficinas seguiram nessa linha e, como em
todo evento, a Feira de Desenho Vivo fez sucesso com suas barraquinhas
recheadas de gostosuras coloridas e saudáveis. Mesmo quem já conhece ficou
enfeitiçado com a criatividade e beleza dos snacks doces e salgados.
Cozinheiros consagrados, como Anna Elisa de Castro, criaram maravilhas em
tendas montadas ao ar livre e provaram que é possível elevar a comida
vegetariana à alta cozinha até com o mínimo de infra-estrutura. Quem assistiu,
provou, aprovou e certamente foi pra casa cheio de idéias culinárias!
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Momentos descontraídos nos ´corredores´
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Participantes do Congresso
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“Um evento como esse
gera uma reação muito positiva”, comentou Patrícia Marx, artista que partilhou
com a platéia seu caminho para o vegetarianismo e promete, para o ano que vem,
lançar um disco “totalmente verde” e, assim, colaborar para a causa. Quem também
colocou tempero especial no encontro com sua história pessoal foi Beatriz Medina, do Departamento
de Tradução da SVB. Com o know-how de quem criou cinco filhos sem açúcar,
carne e quase nada de alimento industrializado, ela deu dicas de como ser
vegetariano em família, viagens e encontros sociais. Desde encher a pança antes
de ir à festa infantil até levar um mini-fogareiro para quarto de hotel,
Beatriz contou que, ao longo de 30 anos, nunca precisou engolir o que não
queria. Mas nem sempre isso é fácil. A equipe da SVB, depois de trabalhar o dia
todo, preferiu comprar legumes e preparar uma sopa do que peregrinar por Belo
Horizonte em busca de um jantar vegano...
Enfim, o Congresso não
abalou Belzonte, nem estourou na mídia. Ainda. Mais do que ganhar corpo, o
movimento ganha força. Ou seja, se fortalece para poder crescer.
Raquel Ribeiro - jornalista da SVB
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