2o Congresso Vegetariano Brasileiro
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Vozes Vegetarianas na Literatura PDF E-mail
09-Jun-2008
por Rafael Bán Jacobsen

Resumo

            Neste artigo, mostraremos de que forma a filosofia vegetariana de respeito aos direitos animais surge, periodicamente, ao longo de toda história da literatura, nas obras de alguns dos maiores escritores que a humanidade já produziu. Nessa jornada revisionista, encontraremos textos de Khalil Gibran, Jonathan Swift, Kafka, Bernard Shaw, Tolstói, Bashevis Singer, Machado de Assis, entre outros. Tal diversidade de autores, tão distantes cronológica, geográfica e mesmo esteticamente, aponta a ausência de fronteiras e a atemporalidade do seguinte questionamento: o que representa, do ponto de vista ético, para nós, seres humanos, nos utilizarmos dos corpos de outros animais para tantos fins, até mesmo para nossa alimentação? Somando todas essas vozes, buscaremos uma resposta-síntese a essa pergunta, uma resposta não ditada pela lógica racional, mas sim pela memória sensível da humanidade – a literatura.

A Dualidade da Relação Homem-Animais

            Muitas questões básicas têm ecoado nas mentes humanas desde que o primeiro homo sapiens pisou sobre a Terra: a inexorabilidade da passagem do tempo, a imprevisibilidade da morte, o enlevo proporcionado pelo enlace amoroso, a veleidade das relações humanas, as injustiças inerentes aos diferentes modelos de organização social, etc. Outro tema recorrente, embora menos visível, é o da relação entre o ser humano e as outras espécies de animais (sim; mesmo que faça todos esforços para se afastar de sua classificação taxonômica, o homem é apenas mais uma das tantas espécies animais que habitam nosso planeta).

            O pensamento humano acerca dessa relação é marcado por uma clara dualidade: de um lado, erguem-se as vozes que defendem a utilização dos demais animais pelo homem, de maneira menos ou mais exploratória, mas sempre justificada por uma diferença de status moral entre “nós” e “eles”, sendo, assim, o nosso ato de comê-los plenamente justificado; do outro, aquelas vozes que advogam direitos morais básicos aos animais não-humanos, direitos tais como o direito à vida, à integridade física, à liberdade (e, é claro, uma conseqüência direta da observância de tais direitos seria nossa renúncia à utilização dos demais animais como meios para nossos fins, sejam esses fins quais forem, até mesmo gastronômicos).  

            Essa dicotomia, a rigor, é uma herança filosófica helenística.

            Vejamos os pensadores que estão de um lado dessa contenda.

            No século VI a.C., Pitágoras, filósofo e matemático, já falava sobre respeito animal em sua obra “Do consumo da carne”, pois acreditava na transmigração de almas. Ou seja: de acordo com Pitágoras, os animais não-humanos são seres humanos reencarnados. Por isso, a justiça e a compaixão demonstradas a vacas e porcos são justiça e compaixão demonstradas a seres humanos. O pensamento pitagórico foi seguido também por Sócrates e por seus discípulos, incluindo Platão. Assim, filósofos neo-platonistas vieram também a advogar a dieta vegetariana. Um exemplo é Porfírio (233-306 d.C.), que adota uma postura vegetariana, porém com um embasamento mais moderno em sai obra “Da abstinência”. Ele defende que os animais não-humanos merecem consideração moral devido àquilo que são (criaturas sensíveis e conscientes) e não devido ao que não são (seres humanos aprisionados em corpos de animais). O que mais espanta Porfírio não é que pessoas como ele optem por não comer carne, mas sim que alguém tenha optado por fazê-lo:

            Quanto a mim (...) pergunto-me por que acidente e em que estado da alma ou da mente o primeiro homem que o fez tocou o sangue com sua boca e levou os seus lábios à carne de uma criatura morta, aquele que pôs à mesa corpos mortos e fétidos e aventurou-se a chamar de nutrição os pedaços que um pouco antes bramiam e gritavam, moviam-se e viviam. Como puderam seus olhos suportar o massacre de se cortarem gargantas, de se esfolar o couro, de se arrancar um membro de outro membro? Como pôde o seu nariz agüentar o fedor? Como é que a imundície não causou repulsa ao paladar daquele que fez contato com as feridas de outros e sugou fluidos e soros de ferimentos mortais?

            Por sua vez, o ensaísta romano Plutarco (56-120 d.C.) escreveu em seu “Do consumo de carne”:           

            Mas, em prol de algum bocadinho de carne, privamos uma criatura inocente do sol e da luz e daquela porção de vida e tempo que ela veio ao mundo para gozar.

            E quem encontramos defendendo, na Antiguidade Clássica, a posição contrária?

            Temos, por exemplo, Aristóteles, que escreveu, no século IV a.C., argumentando que os animais estavam distantes dos humanos na Grande Corrente do Ser ou escala natural. Alegando irracionalidade, concluía, assim sendo, que os animais não teriam interesse próprio, existindo apenas para benefício dos seres humanos.  

            A partir dessas duas linhas de pensamento sobre a relação homem-animal, a linha pitagórica e a linha aristotélica, dividiram-se os pensadores nos séculos seguintes.

            No século XVII, o filósofo francês René Descartes (1596-1650) argumenta que animais não têm almas, logo não pensam e não sentem dor, sendo assim os maus-tratos não eram errados. Contra isso, Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) argumenta, no prefácio do seu “Discursos sobre a Desigualdade” (1754), que os seres humanos são animais, embora ninguém “exima-se de intelecto e liberdade”. Entretanto, como animais são seres sensíveis e conscientes, “eles deveriam também participar do direito natural”.

            Também Voltaire (1694-1778) respondeu a Descartes no seu Dicionário Filosófico:

 

            Que ingenuidade, que pobreza de espírito, dizer que os animais são máquinas privadas de conhecimento e sentimento, que procedem sempre da mesma maneira, que nada aprendem, nada aperfeiçoam! Será porque falo que julgas que tenho sentimento, memória, idéias? Pois bem, calo-me. Vês-me entrar em casa aflito, procurar um papel com inquietude, abrir a escrivaninha, onde me lembra tê-lo guardado, encontrá-lo, lê-lo com alegria. Percebes que experimentei os sentimentos de aflição e prazer, que tenho memória e conhecimento. Vê com os mesmos olhos esse cão que perdeu o amo e procura-o por toda parte com ganidos dolorosos, entra em casa agitado, inquieto, desce e sobe e vai de aposento em aposento e enfim encontra no gabinete o ente amado, a quem manifesta sua alegria pela ternura dos ladridos, com saltos e carícias. Bárbaros agarram esse cão, que tão prodigiosamente vence o homem em amizade, pregam-no em cima de uma mesa e dissecam-no vivo para mostrarem-te suas veias mesentéricas. Descobres nele todos os mesmos órgãos de sentimentos de que te gabas. Responde-me maquinista, teria a natureza entrosado nesse animal todos os órgãos do sentimento sem objetivo algum? Terá nervos para ser insensível? Não inquines à natureza tão impertinente contradição.

 

            Além de filósofos, Rousseau e Voltaire eram também homens de letras, escritores, na acepção de criadores de obras de articulação e conteúdo estético (isto é, não estritamente argumentativo, lógico e racional, como é o discurso filosófico). Foi a partir deles, então, que surgiram e ganharam força de côro muitas e variadas vozes vegetarianas na literatura.

            Conheçamos, pois, algumas delas e o que elas podem nos ensinar, não exatamente através da razão, mas sim através da sensibilidade.

Khalil Gibran (1833-1931)

            Nada mais didático do que iniciar com aquilo que se configura quase como que um exemplo do senso comum quanto ao nosso tratamento para com os animais.

            Raríssimas são as pessoas que pensam ou que, pelo menos, advogam que os animais devam ser maltratados. O uso que fazemos deles, na maioria dos casos, é visto como um “mal necessário”, que deve ser levado a cabo com a menor crueldade possível. Dessa forma, atear fogo em cães de rua, vestir casacos de pele de raposa ou caçar baleias para confecção de artigos de luxo são classificados, quase por unanimidade, como atos obscenos do ponto de vista moral. Todavia, outros tantos usos dos animais são muito mais aceitos socialmente. O consumo regular de carne é um exemplo.

            Tanto é assim que mesmo obras literárias que enfatizam a benevolência, a virtude e o altruísmo acabam por reproduzir essa concepção. Vejamos o que escreveu o libanês Khalil Gibran em sua obra “O Profeta”:

            Mas como precisais matar para comer e roubar do recém-nascido o leite da mãe para saciar sua sede, que isto seja um ato de louvor. (...) Quando matardes um animal, dizei a ele, do fundo do vosso coração: “Pelo mesmo poder que te abate, eu também sou abatido; e eu também serei consumido.”

            Na atualidade, nem mesmo o conselho do autor de fazer do abate animal um ato de louvor pode ser seguido. A divisão do trabalho, hoje, permite que o homem moderno coma carne sem passar pela experiência de matar o animal com cujos músculos deseja se alimentar, experiência essa que o filósofo escocês John Oswald (1760-1793) chama de alerta para as sensibilidades naturais do ser humano (enquanto a brutalização do homem moderno faz dele um acomodado com essa falta de sensibilidade). 

Jonathan Swift (1667-1745)

            No romance satírico “As Viagens de Gulliver”, do irlandês Jonathan Swift, encontramos a percepção de que o vegetarianismo é uma escolha racional e virtuosa.

            A narrativa inicia-se com o naufrágio do navio onde Gulliver seguia. Após o naufrágio, ele acaba sendo levado pelas circunstâncias às mais pitorescas terras. O episódio mais conhecido é, certamente, aquele em que Gulliver é arrastado para uma ilha chamada Lilliput. Os habitantes dessa ilha, que eram extremamente pequenos, estavam constantemente em guerra por futilidades. Nosso interesse, porém, está na última das viagens de Gulliver.

            Em sua última viagem, Gulliver encontra os Houyhnhnms, uma raça de cavalos que possuía muita inteligência, e os Yahoos, uma raça humanóide imperfeita, de comportamento selvagem. Dentro da alegoria, os Yahoos representam o homem em sua natureza mais primitiva, e os Houyhnhnms personificam o homem em seu mais elevado potencial, atingido com o exercício pleno da razão. A diferença entre as duas raças é marcada de diversas formas, inclusive pela dieta que seguem. Os Houyhnhnms comem basicamente cereais, enquanto os Yahoos são contumazes comedores de carne. Associando-se o tipo de alimento consumido às demais características de cada uma dessas raças encontradas por Gulliver, fica clara a idéia subjacente de que uma dieta carnívora tende à selvageria enquanto um estilo de vida vegetariano se associa a maior discernimento e clareza mental.

            Nas palavras do romancista:

            (...) deparei com três das detestáveis criaturas que encontrara após minha chegada e que se alimentavam de raízes e da carne de alguns animais que ao depois verifiquei serem burros e cães e, de onde em onde, uma vaca, morta por acidente ou moléstia. (...) Possuíram-me um horror e um pasmo indescritíveis quando observei, nesse abominável animal, uma perfeita figura humana: tinha o rosto, efetivamente, achatado e largo, o nariz deprimido, os lábios grossos e a boca enorme; mas as diferenças são comuns a todas as nações selvagens (...). O garrano alazão ofereceu-me uma raiz, que segurava entre o casco e a quartela; tomei-a nas mãos e, depois de havê-la cheirado, devolvi-lha com a maior civilidade possível. Foi então buscar ao covil dos Yahoos um pedaço de carne de burro, mas esta fedia tanto que me afastei, repugnado, atirando-a ele ao Yahoo, que a devorou sofregamente. Mostrou-me, em seguida, uma paveia de feno e uma quartela de aveia; mas abanei a cabeça para significar que não eram alimento para mim.

            A partir daí, convivendo com os virtuosos Houyhnhnms, Gulliver se acostuma com a sua dieta.

            O vegetarianismo de Swift não é obra do acaso.

            Thomas Tryon (1634-1703), um filósofo autodidata e aluno do místico protestante Jakob Boehmen, publicou, em 1691, seu livro, “O Caminho da Saúde”, advogando uma dieta vegetariana. Essa obra era amplamente lido pelos pensadores da época. Ela até mesmo influenciou o jovem Benjamin Franklin (1706-1790) a se tornar um "Tryonista" por algum tempo. A mensagem de Tryon também influenciou o Dr. George Cheyne (1671- 1743), um famoso médico de Londres. Anos de indulgência o deixaram com aproximadamente 250 quilos; assim, ele decidiu seguir a dieta vegetariana descrita por Tryon. O sucesso de Cheyne levou-o a publicar, em 1724, o “Ensaio sobre Saúde e Vida Longeva”, recomendando uma dieta sem carne. O fundador da Igreja Metodista, John Wesley (1703-1791), foi paciente de Cheyne e convertido ao vegetarianismo. Cheyne contava com outros famosos amigos, como o poeta Alexander Pope (1688-1744), o filósofo David Hume (1711-1776) e – aí está! – o escritor Jonathan Swift.

Percy Bysshe Shelley (1792-1822)

            Outra voz essencial é a de Shelley, imortal poeta romântico inglês. É dele a voz intransigente do vegetarianismo, do ateísmo e do amor livre (não necessariamente nesta ordem). Assim ele escreve em sua “Justificativa da Dieta Natural”:

            É somente ao suavizar e disfarçar a carne morta com a preparação culinária que ela se torna suscetível de mastigação e digestão; e que a visão dos seus fluidos ensangüentados não provoca nojo e repulsa.

             As palavras de Shelley são fortes e alertam para um fato interessante: a carne, in natura, ao contrário de frutas e legumes frescos e tantos outros alimentos vegetais, não aguça nosso paladar; ao contrário, um pedaço de carne crua, recém arrancada de um animal, ainda quente e sangrando, é muito mais passível de despertar asco do que apetite. 

Leon Tolstói (1828-1910)

            O romancista russo Tolstói, por sua vez, levou a cabo a experiência à qual a maior parte de nós se recusa, aquela mesma experiência considerada por Oswald como um alerta à sensibilidade natural do homem: Tolstói visitou um matadouro.

            O escritor, bem como qualquer vegetariano de qualquer outra época, estava acostumado a viver em uma sociedade erigida sobre a exploração animal. Já ouvira todas as razões antigas e conhecidas pelas quais matar animais para comer é aceitável e até natural, coisas como “Deus permite”, ou “todo mundo faz assim”. A respeito disso, escreveu ele:

            Não existe mau cheiro, som, monstruosidade aos quais o homem não consiga se acostumar a ponto de deixar de ver, escutar e cheirar a aparência, o som e o odor do mal.

            Tal convicção reforçou-se ainda mais com sua visita ao matadouro, descrita por ele nas seguintes palavras:

            (...) na longa sala, já impregnada com o cheiro de sangue, só havia dois açougueiros. Um soprava a perna de um carneiro morto e batia no estômago inchado com a mão; o outro, um rapaz de avental emplastado de sangue, fumava um cigarro torto. (...) Depois de mim entrou um homem, aparentemente um ex-soldado, trazendo um jovem carneiro de um ano, preto com uma marca branca no pescoço, de patas amarradas. Este animal ele o pôs sobre uma das mesas, como se numa cama. O soldado velho saudou os açougueiros, que evidentemente conhecia, e começou a perguntar quando o seu patrão lhes permitia ir embora. O camarada com o cigarro aproximou-se com o facão, afiou-o na borda da mesa e respondeu que estavam de folga nos feriados. O carneiro vivo estava ali deitado, tão silencioso quanto o morto e inflado, a não ser por sacudir nervosamente o rabo curto e os lados a se alçarem com mais rapidez que de costume. O soldado baixou gentilmente, sem esforço, a cabeça levantada; o açougueiro, sem parar de conversar, agarrou com a mão esquerda a cabeça do carneiro e cortou-lhe a garganta. O animal tremeu, e o rabinho endureceu e parou de abanar. O camarada, enquanto esperava o sangue correr, começou a reacender o seu cigarro, que se apagara. O sangue corria, e o carneiro começou a agonizar. A conversa continuou sem a mínima interrupção. Era horrivelmente revoltante.

            Para nós, hoje, seria um alívio descobrir que os matadouros de agora são menos “revoltantes” do que aquele que Tolstói descreve. A verdade é bem outra. A frieza com que os animais são mortos é exatamente a mesma. São diferentes apenas duas coisas: hoje, os animais são mortos em escala industrial, no que poderíamos de chamar de verdadeiras “linhas de desmontagem”, que contam com as mais bizarras tecnologias (esteiras com ganchos para suspender as vítimas, serras elétricas, tonéis de escalda etc.); além disso, os matadouros não param mais nos feriados – funcionam noite e dia, ininterruptamente, para atender a imensa e crescente demanda por carne.

 

Franz Kafka (1883-1924)

            O escritor tcheco Franz Kafka foi outro fervoroso adepto do vegetarianismo. Em seus diários, relata a experiência que teve, certa vez, em um aquário em Berlim. Observando um peixe através do vidro, pensou:

            Agora posso te olhar em paz, pois já não mais te devoro.

            A relação homem-animal (que, para Kafka, deveria ser de profundo respeito, razão esta do seu vegetarianismo) aparece em outros textos seus. Um exemplo particularmente interessante é o conto “Relato a uma Academia”, sobre um macaco educado, Pedro Rubro, que comparece diante dos membros de uma academia para contar a história de sua vida, de sua ascensão de fera a algo próximo do homem. Com a figura de um macaco falante, de gravata-borboleta, smoking e com o bloco de notas da palestra em punho, Kafka derruba a auto-proclamada fronteira que o homem estabelece entre si e as demais espécies de animais. Ao final de sua narrativa, o macaco Pedro Rubro, já perfeitamente humanizado e educado, reflete sobre a sua transformação e sobre o que ganhou com ela. Sua constatação é pouco alentadora para a espécie homo sapiens. Ao conquistar tudo que julgamos relevante (conforto, reconhecimento, vida social agitada, um relacionamento conjugal), Pedro parece encarar tudo com um grande vazio – a vida humana em nada é mais valiosa do que a sua prévia vida simiesca:

            Se com uma vista de olhos examino toda minha evolução e o que foi seu objetivo até agora, nem me lamento dela, nem me dou por satisfeito. Com as mãos nos bolsos da calça, com a garrafa de vinho sobre a mesa, recostado ou sentado a meias na cadeira de balanço, olho pela janela. Se chegam visitas, recebo-as como se deve. Meu empresário está sentado na antecâmara: se toco a campainha, acode e escuta o que tenho a dizer-lhe. De noite quase sempre há função e obtenho êxitos já mal superáveis. E se ao sair dos banquetes, das sociedades científicas ou das gratas reuniões entre amigos, chego à casa a horas avançadas da noite, ali me espera uma pequena e semiamestrada chimpanzé, com quem, à maneira simiesca, passo muito bem. De dia não quero vê-la, pois tem no olhar essa loucura do animal perturbado pelo amestramento; isso unicamente eu o percebo, e não posso suportá-lo.

 

Romain Rolland (1866-1944)

            Uma das vozes vegetarianas mais fortes na literatura é a do escritor francês Romain Rolland, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura. O importante romance em dez volumes de Rolland, “Jean-Cristophe”, conta a história de um músico e compositor que se afasta do mundo e reflete sobre os seus muitos males. Não é um romance cômico. Está cheio até a borda daquilo que Rolland acredita ser a pior tragédia do mundo: a chacina de animais para comer. Escreve Rolland:

            Com toda veemência de sua (...) natureza, [Cristophe] sondou as profundezas da tragédia do universo: ele sofria todo o sofrimento do mundo e ficara, ensangüentado, em carne viva. Olhava os olhos dos bichos e via uma alma como a sua, uma alma que não sabia falar; mas os olhos gritavam por ela:

            O que te fiz? Por que me feres?

            Ele não suportava ver as coisas mais ordinárias que vira centenas de vezes – um bezerro chorando num cercado, com olhos grandes e esbugalhados, de branco azulado e pálpebras rosadas, e pestanas brancas, os tufos de pêlo branco e encaracolado na testa, o focinho arroxeado, as pernas ainda trêmulas; – um cordeirinho sendo carregado por um camponês com as quatro patas amarradas, de cabeça para baixo, tentando manter a cabeça levantada, gemendo como uma criança, balindo e esticando a língua cinzenta; – aves amontoadas num cesto; – os guinchos distantes de um porco sendo sangrado; – um peixe a ser limpo na mesa da cozinha... As torturas inomináveis que os homens infligem a estas criaturas inocentes faziam doer o seu coração. Concedei aos animais um vislumbre de razão, imaginai que pesadelo apavorante é, para eles, o mundo: um sonho de homens de sangue-frio, cegos e surdos, que lhes cortam a garganta, abrem-lhes o peito, evisceram-nos, cortam-nos em pedaços, cozinham-nos vivos, às vezes rindo-se deles e de suas contorções enquanto padecem em agonia. Há coisa mais atroz entre os canibais (...)? Para um homem cuja mente é livre há algo de mais intolerável no sofrimento dos animais do que no sofrimento dos homens. Afinal, no caso destes últimos, pelo menos se admite que o sofrimento é cruel e que o homem que o causa é um criminoso. Mas milhares de animais são abatidos inutilmente todos os dias sem sombra de remorso. Se algum homem se referisse a isso, seria considerado ridículo – e este é um crime imperdoável. Esta, sozinha, é a justificativa de tudo o que os homens sofrem. Exige a vingança de Deus. Se existe um Deus bom, então até a mais humilde das coisas vivas deveria ser salva. Se Deus é bom somente com os fortes, se não há justiça para os fracos e inferiores, para as pobres criaturas que são oferecidas em sacrifício à humanidade, então não existe esta tal bondade, esta tal justiça...

 

Bernard Shaw (1856-1950)

            George Bernard Shaw foi um escritor, jornalista e dramaturgo irlandês. É conhecido autor de comédias satíricas de espírito irreverente e inconformista. Foi a primeira pessoa a ganhar um Prêmio Nobel (o de Literatura, em 1925) e um Oscar (o de melhor roteiro adaptado, em 1939, pelo filme “Pigmalião”, adaptação de uma peça sua).

            Decidido a se tornar escritor, foi morar em Londres no ano de 1876, quando contava com vinte anos de idade. Lá, tornou-se vegetariano, orador brilhante, polemista e fez as primeiras tentativas como dramaturgo. São seus alguns dos mais conhecidos aforismos sobre o vegetarianismo:

            Quanto mais o homem simplifica a sua alimentação e se afasta do regime carnívoro, mais sábia é a sua mente.

            Os animais são meus amigos, e eu não como meus amigos.

            Somos sepulturas vivas de animais assassinados para satisfazer nossos apetites. Como podemos esperar neste mundo a paz por que tanto ansiamos?

 

            Conta-se que, certa vez, alguém perguntou a Bernard Shaw como é que ele parecia  tão jovem. Sua antológica resposta não deixa dúvidas quanto às suas convicções:

            Pareço ter minha própria idade. São as outras pessoas que parecem mais velhas do que são. Que se pode esperar de gente que come cadáveres?

 

Bashevis Singer (1904-1991)

            Isaac Bashevis Singer, judeu e Prêmio Nobel de Literatura, foi outro escritor que abordou brilhantemente a temática vegetariana, em várias de suas obras. A tese de Bashevis Singer é clara: todos nós, seres humanos, por conta de nossos hábitos de consumo e de nossa cultura antropocêntrica, somos responsáveis por um crime monstruoso, um verdadeiro holocausto animal.  

            Um exemplo que fala por si é o seguinte trecho da novela “O Penitente”, em que o narrador, um judeu relapso que decide se voltar à espiritualidade e abandonar as coisas mundanas, tornado-se justo e virtuoso, se questiona sobre a exploração dos animais:

            Há muito eu chegara à conclusão que o tratamento do homem para as criaturas de Deus torna ridículos todos os seus ideais e todo o pretenso humanismo. Para que este estufado indivíduo degustasse seu presunto, uma criatura viva teve de ser criada, arrastada para sua morte, esfaqueada, torturada e escaldada em água quente. O homem não dava um segundo de pensamento ao fato de que o porco era feito do mesmo material e que este tinha de pagar com sofrimento e morte para que ele pudesse saborear sua carne. Pensei mais de uma vez que, quando se trata de animais, todo homem é um nazista.

 

John Maxwell Coetzee (1940- )

            Outro vencedor do Nobel, o sul-africano Coetzee, faz eco à idéia defendida por Bashevis Singer de que os homens escravizam, torturam e exterminam em massa os animais, assim como os nazistas fizeram com os judeus. Tal concepção surge em diversos trabalhos seus. O exemplo mais óbvio é o livro “A Vida dos Animais”.

            Convidado a proferir uma palestra na Universidade de Princeton, o escritor surpreendeu sua audiência. Em lugar de um ensaio teórico, ele leu esta inquietante narrativa sobre a relação entre os homens e os animais. O romance é protagonizado por uma escritora, Elizabeth Costello, que, assim como Coetzee, se prepara para um ciclo de conferências e discorre sobre as questões filosóficas e éticas que envolvem o nosso trato com os animais. Num bem articulado jogo entre ficção e realidade, teoria e prática cotidiana, Coetzee nos conduz por questionamentos sobre a vida e a razão. A prosa inflamada de Elizabeth Costello, vegetariana radical, faz uma polêmica analogia entre o abate do gado bovino e o holocausto nazista. As resistências às suas idéias começam em ambiente familiar. Hospedada na casa do filho, ela tem que contrapor suas convicções ao dia-a-dia da família.

            Talvez a porção final do texto, em que Elizabeth Costello faz um doloroso desabafo ao seu filho, seja a mais primorosa síntese que dele próprio se possa fazer:

            Aparentemente, eu me movimento perfeitamente bem no meio das pessoas, tenho relações perfeitamente normais com elas. É possível, me pergunto, que todas estejam participando de um crime de proporções inimagináveis? Estou fantasiando isso tudo? Devo estar louca! No entanto, todo dia vejo provas disso. As próprias pessoas de quem desconfio produzem provas, exibem as provas para mim, me oferecem. Cadáveres. Fragmentos de corpos que compraram com dinheiro. É como se eu fosse visitar amigos, fizesse algum comentário gentil sobre um abajur da sala, e eles respondessem: 'Bonito, não é? Feito de pele judaico-polonesa, é o que há de melhor, pele de jovens virgens judaico-polonesas.' E aí eu vou ao banheiro, e a embalagem do sabonete diz assim: 'Treblinka – 100% estearato humano'. Será que estou sonhando, pergunto a mim mesma? Que casa é esta? E não estou sonhando, não. (...) Calma, digo para mim mesma, você está fazendo tempestade em um copo d´água. Assim é a vida. Todo mundo se acostuma com isso, por que você não? Por que você não?

 

Alice Walker (1944- )

            A escravidão e a matança de animais não estabelecem paralelo unicamente com o holocausto judaico, mas sim com todos os demais crimes perpetrados por um determinado grupo de homens sobre um outro. Isso é também o que nos diz Alice Walker:

            Os animais do mundo existem por suas próprias razões. Não foram feitos para os seres humanos, do mesmo modo que os negros não foram feitos para os brancos, nem as mulheres para os homens.

            Quem é Alice Walker? A escritora ganhadora de um Prêmio Pulitzer. Mais do que isso, africana, filha de agricultores, graduada com muito esforço, e autora do mundialmente famoso romance “A Cor Púrpura”, obra essencial que retratou a vida dura, pobre, oprimida e sem amor de uma negra sulista norte-americana. Portanto, negra e ativista.

            Alice Walker sente grande empatia pelos animais e enxerga o paralelo entre as próprias experiências com a discriminação e o modo como os animais são usualmente tratados. Tanto que prefaciou o livro “A terrível semelhança: Escravidão Humana e Animal” (tradução livre do original em inglês, “The Dreaded Comparison: Human and Animal Slavery”), da escritora Marjorie Spiegel.

            Marjorie Spiegel fez esse pequeno porém corajoso livro em 1988 (portanto, há quase 20 anos) revelando extraordinárias similaridades entre os dois sistemas de opressão. Entretanto, não é popular, seguro ou conveniente a divulgação desse tipo de informação e a conseqüente ameaça ao sistema econômico vigente, baseado em exploração dos animais ditos irracionais por parte dos seres humanos.

 

Brian Aldiss (1925- )

            Brian Wilson Aldiss é um escritor inglês de ficção científica. Um de seus livros de contos mais conhecidos é “Superbrinquedos duram o verão todo”. Neste volume, encontramos um interessante texto intitulado “Carne”. Nele, é apresentada a visão apocalíptica de uma realidade futura em que a exploração dos animais e a criação de rebanhos cada vez maiores acabaram por arruinar o equilíbrio ambiental do planeta, culminando com a proliferação de doenças entre os próprios animais, o que ocasionou a extinção de todo rebanho bovino e 99% do rebanho ovino.

            O impacto ambiental da criação industrial de animais para consumo humano é fato. E esse fato é literariamente descrito nas seguintes passagens do texto;

            (...) quarenta por cento da terra agriculturável do país estava sendo usada no plantio de forragem para os animais que eram abatidos e exportados. Uma outra porção das terras era empregada no plantio de soja – exportada para alimentar o gado do Primeiro Mundo. (...)

            A imagem anódina que os Carnívoros apresentavam ao mundo mostrava o gado pastando placidamente em verdes campinas. Isso já se tornara uma fantasia muito antes do fim. A verdade é que aquelas criaturas sensíveis – não apenas o gado bovino, como também o ovino, os porcos e os galináceos – já não eram mais animais e sim meras unidades de produção de carne, destinadas a percorrer o trajeto até os estômagos glutões do Ocidente da maneira mais rápida e barata possível.

            Para manter essas unidades produtoras de carne saudáveis em sua curta existência, elas eram abarrotadas de penicilina. De tal forma que os antibióticos foram ficando cada vez mais ineficazes em sua tarefa de curar uma população cada vez mais doente. População cujo hábito de se empanturrar de carne acelerou o ritmo das doenças.

            A última linha do conto, diante de tal quadro, nem tão distante de nossa atual realidade, infelizmente não pode ser taxada de panfletária ou exagerada:

            Carne Faz Mal a Você. Ela Fez Mal ao Planeta Todo.   

 

Machado de Assis (1839- 1908)

            O grande escritor fluminense Machado de Assis, provavelmente o maior vulto das letras nacionais de todos os tempos, era um simpatizante do vegetarianismo. Tal fato transparece em um de seus textos que faz parte de um conjunto de crônicas produzidas pelo autor entre os anos de 1892 e 1893, sendo veiculadas, na época, pela imprensa do Rio de Janeiro, sob o título de “A Semana”.

            Eis mais um nome de peso que vem se somar aos simpatizantes da causa vegetariana. Note-se, no texto a seguir, a frustração de Machado consigo mesmo por não ter conseguido ser vegetariano, como desejava, e, ao contrário, ter se deixado levar pelo atavismo e pelo status quo corrompido em que se achava inserido:

            Quando os jornais anunciaram para o dia 1º deste mês uma parede [greve] de açougueiros, a sensação que tive foi mui diversa da de todos os meus concidadãos. Vós ficastes aterrados; eu agradeci o acontecimento ao céu. Boa ocasião para converter esta cidade ao vegetarismo.

            Não sei se sabem que eu era carnívoro por educação e vegetariano por princípio. Criaram-me a carne, mais carne, ainda carne, sempre carne. Quando cheguei ao uso da razão e organizei o meu código de princípios, incluí nele o vegetarismo; mas era tarde para a execução. Fiquei carnívoro. Era a sorte humana; foi a minha. Certo, a arte disfarça a hediondez da matéria. O cozinheiro corrige o talho. Pelo que respeita ao boi, a ausência do vulto inteiro faz esquecer que a gente come um pedaço de animal. Não importa, o homem é carnívoro.

            Deus, ao contrário, é vegetariano. Para mim, a questão do paraíso terrestre explica-se clara e singelamente pelo vegetarismo. Deus criou o homem para os vegetais, e os vegetais para o homem; fez o paraíso cheio de amores e frutos, e pôs o homem nele. Comei de tudo, disse-lhe, menos do fruto desta árvore. Ora, essa chamada árvore era simplesmente carne, um pedaço de boi, talvez um boi inteiro. Se eu soubesse hebraico, explicaria isto muito melhor. (...)

            Enfim, chegou o dia 1º de março; quase todos os açougues amanheceram sem carne. Chamei a família; com um discurso mostrei-lhe que a superioridade do vegetal sobre o animal era tão grande, que devíamos aproveitar a ocasião e adotar o são e fecundo princípio vegetariano. Nada de ovos, nem leite, que fediam a carne. Ervas, ervas santas, puras, em que não há sangue, todas as variedades das plantas, que não berram nem esperneiam, quando lhes tiram a vida. Convenci a todos; não tivemos almoço nem jantar, mas dous banquetes.

 

Conclusão

            Conhecemos, neste artigo, algumas das personalidades do mundo das letras que, em suas criações, se pronunciaram a favor do vegetarianismo e contra a exploração animal.

            Essas importantes vozes, porém, foram tão bem silenciadas que soa surpreendente para a maioria das pessoas saber a quanto tempo elas vêm falando e de quem são essas vozes.

            São vozes distantes geográfica e cronologicamente, muito variadas em tom e articulação, mas presentes ao longo de toda história da literatura e convergentes na mensagem essencial: dor é dor, exploração é exploração, humilhação é humilhação, não importando a cor da pele, a etnia, o tamanho do nariz e, por incrível que pareça, nem mesmo a espécie da vítima.

Bibliografia

·        Animal rights, Enciclopédia Britânica, retirado em 16 de Junho de 2006.

·        ROSSEAU, Jean-Jacques. Discursos sobre a Desigualdade, 1754, prefácio.

·        REGAN, Tom. Vozes Vegetarianas: um comentário, palestra proferida no Primeiro Congresso Vegetariano Brasileiro e Latino-Americano, Agosto de 2006.

·        GIBRAN, Khalil. O Profeta.

·        SINGER, Isaac Bashevis. O Penitente.

·        COETZEE, J.M. A Vida dos Animais.

·        SWIFT, Jonathan. As Viagens de Gulliver.

·        KAFKA, Franz. A Colônia Penal.

·        ALDISS, BRIAN. Superbrinquedos duram o verão todo.

·        ROLLAND, ROMAIN. Jean-Cristophe.

·        SPIEGEL, MARJORIE. The Dreaded Comparison: Human and Animal Slavery.

·        BROD, MAX. Franz Kafka: A Biography.

·        ASSIS, MACAHDO DE. Obra Completa, vol. III, Nova Aguilar.