36° Congresso Vegetariano Mundial Palestra de Saurabh Dalal (resumo) A Revolução Vegana para a Solução da Fome no Mundo Eu sou Saurabh Dalal de Washington DC, nos EUA. Faço parte da Sociedade Vegetariana de Washington e da União Vegetariana Internacional. A idéia básica dessa palestra é que nosso sistema de agropecuária intensiva é ineficiente e resulta num enorme desperdício de recursos, além de devastar nosso solo, nossa água e nosso ar. Tudo isso está relacionado diretamente à nossa habilidade de produzir comida com custo-benefício. Dessa forma, os componentes principais da minha palestra são a ineficiência, a devastação ambiental e o custo-benefício de se usar esse tipo de agropecuária. É muito difícil separar as várias questões relacionadas ao veganismo. Há diversos motivos que levam as pessoas a se tornarem veganas, os quais envolvem a exploração e a crueldade com animais, os malefícios à saúde e os problemas ambientais. Meu objetivo nesta palestra é separar as questões de uso ambiental e devastação para depois mostrar como elas se relacionam à escolha do que comemos. Isso é importante, pois muitas pessoas podem não se comover, nem ver os benefícios de se parar de comer carne se os argumentos forem apenas ligados a questões éticas ou de direitos dos animais. O que tento fazer é enfatizar os problemas ligados ao meio-ambiente, à fome e à produção de alimentos para reunir dados para argumentar e mostrar às pessoas porque a dieta vegana é a melhor opção. Embora todas as questões estejam interligadas, eu procuro mostrar que as razões ambientais para ser vegetariano são as mesmas que servem para se adquirir maior consciência da fome no planeta. Isso não é muito abordado por grupos vegetarianos e deveria receber mais ênfase. Todos nós sabemos que a fome mundial é um problema muito complexo e envolve fatores sociais, econômicos, políticos, questões ligadas à distribuição, entre outras. É também de conhecimento geral que não existe falta de recursos. Meu objetivo é mostrar que a maneira de utilizarmos esses recursos para produzir “comida” é extremamente devastador, imprevidente e nos obriga a pagar um preço muito mais alto do que podemos pagar. E nós, como cidadãos e contribuintes, pagamos por essa destruição há anos. Por tudo isso, é preciso que haja mais responsabilidade global e fiscal, especialmente quando existe uma ligação direta com os alimentos. No Brasil há uma iniciativa do governo chamada “Fome Zero”, que pretende eliminar a fome no Brasil. Assim, acredito que esta seja uma época muito oportuna para se falar da dieta vegana. Está na hora de fazer com que essa dieta chegue ao conhecimento dos governos locais e federais. Sempre que existe consumo em massa, há produção em massa. Na questão da agropecuária, a produção em massa toma a forma de fazendas industriais. Isso é muito comum no mundo ocidental e está aumentando em outras partes do mundo também. Como todos sabem, as fazendas industriais criam principalmente gado leiteiro, porcos, frangos e outros animais, que são engordados em grandes galpões com fileiras de animais confinados, num ambiente insalubre e anti-higiênico para os animais. Como eu disse, vou falar mais sobre a questão do uso de recursos para a produção de comida. Não vou comentar sobre o abuso e exploração de animais. Esse é um assunto muito importante, mas nesta palestra vou enfatizar a utilização de recursos. A equação básica das fazendas industriais é que eles querem nos fazer acreditar que, se há um investimento de água e comida no sistema, ele devolve comida para a população na forma de carne, leite e derivados e ovos. Para eles, esse é o custo-benefício que eles querem nos fazer crer. Mas é claro que a equação é diferente. Não é só água e comida que “entra” no sistema, mas também muita energia, o uso do solo, de antibióticos, de hormônios, de dinheiro e o uso de animais, que pressupõe exploração e matança. O que “sai” do sistema não é só carne, leite e ovos, mas também fezes, urina, metano, gás carbônico e todos os processos biológicos pelos quais os animais têm que passar. Além disso, há também conseqüências ambientais ligadas ao uso do solo, da água, do ar e os danos a outras espécies e aos seres humanos, ou seja, os aspectos físicos, mentais, emocionais e espirituais do indivíduo. Exemplos disso são as doenças que os seres humanos adquirem por consumir muitos animais. Também os processos mentais, do tipo “como enxergamos o que acontece no universo”. Questões emocionais, de comportamento humano, também recebem impacto do sistema: as causas da violência são muito relevantes e também as coisas nas quais acreditamos, os motivos pelos quais estamos no mundo. Todas essas questões são também resultados do sistema de produção de alimentos. Outros palestrantes neste congresso mostraram argumentos muito importantes que vou comentar brevemente, mas não me aprofundar, como David Pye ontem e Sérgio Greif hoje de manhã. Se tiver tempo, gostaria de mostrar de novo alguns dos slides do Sérgio, que são bem fortes. Vou repetir muitos dos argumentos deles, pois acho que a repetição é uma coisa boa para ajudar a deixar as circunstâncias bem claras. Voltando às fazendas industriais, os animais consomem comida e metabolizam esse alimento como qualquer mamífero ou espécie de animal. Eles estão, na verdade, queimando calorias. Como nós, os animais queimam calorias enquanto respiram, sentam ou ficam de pé. O confinamento é um elemento importante nesse sistema, pois espera-se que o animal queime o mínimo de calorias possível. Toda vez que o animal se movimenta, se ele anda ou corre, ele queima mais calorias. Então a intenção é evitar isso como parte do sistema, para que a queima de calorias não reflita na carne, no leite e no ovo. Mas o fato é que seres vivos queimam calorias e no confinamento são privados disso ao máximo. Então fica claro que alimentar os animais com grãos e plantas, depois matar e comer os animais é algo extremamente ineficiente. As fezes e a urina desses animais não são comestíveis e, como existem em enorme quantidade, contribuem para a ineficiência do sistema. Gostaria de citar alguns números que talvez vocês já conheçam. Os números exatos não são tão importantes, nem se usamos libras ou quilos, mas sim a gravidade da diferença entre eles. Por exemplo, é possível produzir 14 quilos de vegetais com a mesma quantidade de recursos que são necessários para produzir 1 quilo de carne bovina. Vejam que a diferença é enorme e mostra a proporção dessa ineficiência. Assim, o ciclo de ineficiência por alimentar o animal com grãos para depois comer o animal aumenta. Em termos práticos, seria possível comer 8 pães em vez de meio quilo de carne ou 24 pratos de macarrão em vez de meio quilo de carne, uma relação de 12 por 1. Outro número impressionante é o do uso da água. O animal precisa beber água para sobreviver. Durante sua vida no confinamento, o animal bebe água e depois a elimina através da urina. São galões e galões de água por animal, dia a pós dia, semana após semana até que o produto desejado seja obtido. Vocês podem não acreditar, mas nos Estados Unidos, 50% da água limpa do país é utilizada para a criação de animais. São utilizados entre 2.500 e 5.000 galões de água para produzir meio quilo de carne. (um galão equivale a 3,7 litros). Uma pessoa pode tomar 6 meses de banho, em média, com essa mesma quantidade de água. Para produzir meio quilo de tomate, de batata ou de trigo, são necessários 25 galões de água. Então a proporção de ineficiência, quando precisamos de 2.500 ou 5.000 galões para produzir meio quilo de carne, é de 100 ou 200 vezes mais. Para se produzir meio quilo de maçã são necessários 50 galões de água. Como vemos, há uma diferença brutal entre a quantidade necessária de água para a criação de animais e para a produção de frutas e vegetais. Há também a questão das fezes e da urina. Em geral, as fazendas industriais não sabem o que fazer com o esterco produzido pelos animais. Nos Estados Unidos, eles simplesmente amontoam o esterco. Se você andar por uma fazenda industrial, vai ver montanhas de esterco. O solo e os rios acabam sendo poluídos por esse esterco. Uma vaca leiteira, em média, produz 50Kg de esterco por dia. Multipliquem isso pelo número de vacas leiteiras nos Estados Unidos. A quantidade de fezes e urina produzida em um único dia é enorme. Quero também mostrar alguns outros números: cerca de 80% do milho e 90% da soja nos Estados Unidos são usados para alimentar animais. Quanto ao uso eficiente do solo, sabemos que é possível produzir 250 libras (113Kg) de carne em 1 acre (0,40 hectares) de terra. Nesse mesmo 1 acre de terra, podemos produzir 2.200 quilos de cereja, 11.300 quilos de maçã, 1.800 quilos de batata e 22.700 quilos de tomate. Então se a terra fosse cultivada, poderia haver uma redução da ineficiência do uso do solo. Em vez de 113 quilos de carne, produziríamos milhares de quilos de produtos comestíveis. Cerca de 50 veganos poderiam ser alimentados contra apenas 1 consumidor de carne. A proporção é 50 para 1. Outro problema do sistema de alimentar os animais com plantas para depois matá-los e comê-los é o desperdício de nutrientes. Cerca de 90% da proteína, 99% dos carboidratos e 100% das fibras se perdem nesse ciclo. Nenhum produto animal tem fibra. Quase todos os nutrientes que o boi comeu se perdem. Em relação ao combustível, à energia que entra no sistema, os números que posso apresentar são: são necessárias 78 calorias de combustível natural para produzir 1 caloria de carne bovina. Para produzir soja, por exemplo, são necessárias duas calorias de combustível natural para se produzir 1 caloria de proteína vegetal de soja. A proporção é de 39. Pode até ser menor, de 30, por exemplo, mas o que importa é a diferença entre a quantidade de combustível natural usada para produzir proteína animal e vegetal. Nos Estados Unidos, cerca de 1/3 de toda a matéria prima provinda de fazendas, minas, florestas e fontes de combustíveis naturais é usada para a criação de animais. Tudo isso representa enormes danos ao meio-ambiente, além de alto custo.
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