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Paula Brügger A Dra. Paula Brügger é professora do Deptº de Ecologia e Zoologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde leciona "Conservação de Recursos Naturais" e "Meio Ambiente e Desenvolvimento". Graduou-se em Biologia e fez especialização em Hidroecologia. Fez seu mestrado em Educação, "Ciência e Educação", e doutorado em Ciências Sociais, "Sociedade e Meio Ambiente". Coordena o projeto de educação ambiental "Amigo Animal" - oferecido para escolas das redes municipal e estadual como tema transversal. É ativa na defesa dos animais como voluntária da ONG "Sociedade Animal". Foi, durante quatro anos membro do "Comissão de Ética no Uso de Animais" - (CEUA). É autora do livro "Educação ou adestramento ambiental?" que está indo para sua terceira edição este ano, e em breve estará publicando um novo livro sobre educação ambiental onde o relacionamento entre seres humanos e "outros animais" é o foco que norteia uma ampla discussão sobre o relacionamento entre nossa sociedade e o ambiente. Paula Brügger também é ativa na defesa do ambiente tendo assessorado muitas vezes o Ministério Público Federal na luta contra projetos de pseudo-desenvolvimento que além de promoverem exclusão social, destróem a natureza como habitat para uma infinidade de espécies, transformando-a num mero meio para se atingir um fim, uma visão totalmente antropocêntrica.
A Dra. Paula apresentará no 36o Congresso Vegetariano Mundial a seguinte palestra: "Por que protetores de animais comem animais?" A
história da nossa espécie - Homo
sapiens -, sobre a Terra é marcada por uma progressiva ruptura entre
nós e o entorno, como nos ensina Milton Santos. Essa afirmação,
verdadeira sobretudo para as sociedades industriais, nos obriga a
refletir, entre muitas outras questões, sobre o fato de estarmos nos
distanciando cada vez mais dos processos produtivos que fabricam diversos
itens e produtos que consumimos no nosso dia-a-dia. Isso significa que
pouco sabemos sobre o custo ambiental, social, etc, da maior parte desses
produtos. Por exemplo, para ter acesso à eletricidade basta tocar o
interruptor, e para saborear um pedaço de carne, basta escolher um bom
corte no supermercado. Mas o processo de produção de diversos produtos
que consumimos quotidianamente pode ser bastante predatório em muitos
sentidos. Nossa
dieta alimentar, por exemplo, pode ser geradora de grandes impactos
sociais e ambientais, dependendo se ela é basicamente vegetariana ou carnívora
(rica em proteína animal, em geral). As dietas essencialmente carnívoras
provocam hoje gigantescos impactos sociais e ambientais como destruição
de habitats e perdas de
biodiversidade; consumo exacerbado de recursos naturais renováveis e não
renováveis (como água, solo, petróleo); poluição; destruição de
pequenas propriedades rurais e exclusão social; além de estar associada
com o aumento de incidência de diversas doenças como as
cardiovasculares, obesidade, câncer, etc. Todas essas razões seriam
suficientes para abdicarmos de uma dieta rica em proteína animal, pois
tal dieta é insustentável. Entretanto, a questão central deste grupo de
trabalho é o sofrimento infligido aos animais que são criados e abatidos
para consumo humano. Enfim, Por
que é tão
comum protetores de animais comerem
carne? A resposta, me parece, está pelo menos em parte ligada a essa ruptura entre nós e o entorno. Embora possamos prescindir de carne e outras formas de proteína animal para garantir uma boa saúde, muitos protetores de animais ainda comem carne unicamente porque, de um lado, não têm que matar o animal com suas próprias mãos, e de outro, desconhecem todos os sofrimentos por que passam tais animais antes de chegar às suas mesas. Em outras palavras, vale a velha máxima: "o que os olhos não vêem, o coração não sente". A
relação seres humanos-animais pode ser tratada sob inúmeros aspectos:
tráfico de animais; alimentação rica em proteína animal; uso de
animais em ensino e pesquisa; uso de animais em circos, rodeios, etc,
animais de rua, e muitas outras. A questão dos animais de rua é sem dúvida
um dos principais focos de atuação da maior parte das ONGS que têm como objetivo o amparo e a proteção dos animais, e
é um problema muito mais visível, pois os animais abandonados estão
sofrendo diante de nossos olhos. Esse problema é, entretanto, apenas a
"ponta do iceberg", quando
se trata da relação entre nós e os animais. Além
dos inúmeros problemas sociais e ambientais antes apontados, cada vez que
nos sentamos à mesa estamos compactuando, ou não, com a exploração e
sofrimento de milhares de animais. Embora esse sofrimento não esteja
diante de nossos olhos, a verdade é que diversos outros seres sencientes,
isto é - capazes de experimentar prazer, dor e outras sensações -,
passam suas breves vidas confinados em condições deploráveis para
depois serem abatidos e nos servir de alimento. Porcos, frangos, bezerros,
perus e muitos outros animais são brutalmente mutilados antes de virar
comida: seus rabos e bicos são cortados ou queimados para evitar o
canibalismo e/ou para que não possam escolher parte de seu alimento; são
castrados sem anestesia; são transportados para os matadouros sem água
ou alimento suportando temperaturas extremas, etc. O sofrimento pode ser
tanto que em muitos casos - como o dos bezerros criados para produzir
vitela -, o abate, ou seja a morte, é quase que uma redenção, já que
marca o fim de uma vida absolutamente miserável. Há ainda muitas outras
formas de sofrimento impostas a animais que não são criados em cativeiro
como a separação entre mães e filhotes, a separação de rebanhos, as
marcas com ferro em brasa, e outros sacrifícios que não levam em
consideração os interesses dos animais, como argumenta o filósofo Peter
Singer. Mas
será correto submetermos seres sencientes a todo esse sofrimento para
deles tomamos carne, ovos, leite ? Serão os animais nossos companheiros
de jornada na Terra, ou meros recursos para nos servir e atender nossos
desejos hedonistas ? A triste realidade é que em nossa sociedade os
animais estabulados e de granja deixam de ser seres vivos e se tornam
meros objetos, no caso, meros containers
de proteína. É patético pensar, por exemplo, que a idade em que
porquinhos são abatidos, é a mesma época em que, em outras condições,
esses mamíferos inteligentes estariam brincando animadamente, tanto
quanto nossos cães e outros animais de estimação. De fato, o mesmo
tratamento considerado "normal" ou "aceitável" para muitos
animais que nos servem de alimento, é considerado cruel e suficiente para
dar voz de prisão, quando aplicado aos nossos animais de estimação. O
Decreto Lei 24.645/34, por exemplo, que estabelece medidas de Proteção
aos animais, prevê como crime uma série de situações de sofrimento que
ocorrem corriqueiramente com animais submetidos a processos de produção
industrial, mas isso jamais impediu que tais sofrimentos fossem impostos
aos animais. Se tratamos cães e gatos com carinho e amor, mas não nos sensibilizamos com o sofrimento de outros animais, estamos sendo injustos. Não somos mais caçadores-coletores e temos à nossa disposição uma ampla variedade de fontes de proteína que nos garantem uma alimentação balanceada. Portanto, pelo menos no que diz respeito à maior parte da população urbana do mundo, a carne e outras formas de proteína animal podem ser consideradas um luxo já que é possível prescindir de seu consumo. O tratamento diferente que damos a cães e porcos, por exemplo, fere o princípio ético da igualdade, entendida como igual consideração de interesses. Ser passível de sofrimento é a característica que diferencia os seres que têm interesses - os quais deveríamos considerar -, dos que não os têm. Enfim, a condição de "senciente" é suficiente para que um ser vivo seja considerado dentro da esfera da igual consideração de interesses. Para
finalizar, gostaria de citar uma passagem famosa de Peter Singer: "Ao refletirmos sobre a ética do uso de carne animal para a alimentação humana nas sociedades industrializadas, estamos examinando uma situação na qual um interesse humano relativamente menor deve ser confrontado com as vidas e o bem-estar dos animais envolvidos. O arrazoado contra o uso de animais para a nossa alimentação fica mais contundente nos casos em que os animais são submetidos a vidas miseráveis para que sua carne se torne acessível aos seres humanos ao mais baixo custo possível. As formas modernas de criação intensiva aplicam a ciência e a tecnologia de acordo com o ponto de vista segundo o qual os animais são objetos a serem usados por nós. Para que a carne chegue às mesas das pessoas a um preço acessível, a nossa sociedade tolera métodos de produção de carne que confinam animais sensíveis em condições impróprias e espaços exíguos durante toda a duração de suas vidas. Os animais são tratados como máquinas que transformam forragem em carne, e toda inovação que resulte numa maior 'taxa de conversão' será muito provavelmente adotada. Como afirmou uma autoridade no assunto, á crueldade só é admitida quando cessam os lucros'. Para evitar o especismo, devemos por um fim a essas práticas" (Singer, 1998, p.73; grifos meus)". ______________ Para trocar informações com pessoas que virão para o Congresso, inscreva-se na lista ivu-brazil (mensagens em inglês), enviando mensagem para ivu-brazil-subscribe@yahoogroups.com Para trocar informações com pessoas que virão para o Congresso, com mensagens em português inscreva-se na lista ivu-brasil, enviando mensagem para ivu-brasil-subscribe@yahoogrupos.com.br
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