36° Congresso Vegetariano Mundial Palestra de Ken O’Donnel A Ética do Cuidado – A Contribuição do Vegetarianismo para um Mundo Sustentável (resumo) Sou vegetariano há cerca de 30 anos. Eu trabalhava como químico de alimentos e resolvi parar de comer carne por motivos químicos. Tive que fazer uma série de experimentos e fiquei chocado ao pegar um pedaço de carne vermelha, colocá-la no liquidificador e analisar quimicamente o que havia dentro daquele suco. Para minha surpresa descobri que só havia os mesmos ingredientes encontrados na urina da vaca. Depois disso, quando meus amigos diziam “olha só este bife suculento”, eu só pensava na composição química do bife e no fato de as pessoas estarem tomando copos de urina junto com a refeição. Então, parei de comer carne por motivos químicos, mais ou menos na mesma época em que comecei a meditar. Envolvi-me com o movimento Brahma Kumaris, que pratica o Raja Yoga. A meditação também se tornou outro motivo, ajudou-me a perceber que não é bom matar. Assim, primeiro parei de comer carne porque tive que estudar a indústria da carne e, em seguida, aprendi que não podemos matar para comer. Lembro-me de uma frase de George Bernard Shaw que vi nessa época: “Como podemos falar de paz, se nossos estômagos são o cemitério de nossos companheiros animais?”Isso fez sentido para mim, pois eu queria trabalhar pela paz, queria fazer alguma coisa. Lembro-me também de uma frase que meu irmão mais velho, que já era vegetariano e por quem eu já tinha muito respeito, me disse. É uma frase que vocês já devem ter ouvido falar, mas que na época fez muito sentido para mim: “Você é parte do problema, ou parte da solução?” Eu respondi que ainda era parte do problema. Então comecei a entender, à medida que o mundo ia ficando pior e os problemas ambientais surgiam, que havia um terceiro motivo, provavelmente o motivo principal para ser vegetariano: a questão da sustentabilidade. Trabalho como consultor no mundo empresarial com planejamento estratégico sustentável e isso tem ocupado muito meu tempo nos últimos anos. Estive em um congresso na Europa recentemente com executivos importantes de empresas que trabalham com meio-ambiente. Eles falaram sobre o que as empresas têm feito para reduzir o efeito estufa, o aquecimento global, a quantidade de dióxido de carbono na atmosfera. O mediador era um amigo meu, uma pessoa muito incisiva, então depois de todas as palestras, ele disse para os executivos: “Gostaria de simplificar as coisas. Não entendo o que vocês estão falando”. Eles deram todas aquelas explicações técnicas e o mediador disse a eles: “Imaginem que eu seja uma criança de 10 anos de idade. Sei que se eu começar a encher uma banheira de água sem parar, uma hora ela vai transbordar, a não ser que eu puxe a tampa do ralo e deixe a água escoar. É claro que se a quantidade de água que estiver entrando for maior do que a que estiver saindo, ela também vai transbordar”. Então ele disse para todos esses grandes executivos encarregados dos programas ambientais das maiores corporações da Europa: “Qual a quantidade de dióxido de carbono que a atmosfera está recebendo? Ela já transbordou? Até que ponto a fotossíntese vai conseguir lidar com essa quantidade de dióxido de carbono?”. Todos nós sabemos que as plantas transformam dióxido de carbono em oxigênio. Eles se sentiram muito desconfortáveis e ficaram olhando um para o outro, como se quisessem perguntar: “quem de nós vai responder?”, até que um deles falou: “Estamos enchendo a atmosfera de dióxido de carbono numa quantidade três vezes maior do que a fotossíntese é capaz de agüentar”. O mediador então falou: “Certo, ainda sou aquele garoto de 10 anos e entendo que se a banheira recebe três vezes mais água do que é capaz de escoar, ela vai transbordar. Então gostaria de saber: nesse ritmo, quanto tempo ainda temos até a atmosfera ficar saturada? Qual a sua estimativa?”. Sabe o que eles responderam, ainda muito inquietos e sem saber quem falaria para aquela enorme audiência? Eles disseram: “Bem, mais ou menos 5 anos”. Houve um silêncio e um choque profundos na audiência. O mediador então perguntou: “Quando vocês planejam divulgar esse fato? Há certa urgência para fazermos algo que possa reverter esse quadro”. Eu fiquei impressionado e pensei: será que separar o lixo reciclável do orgânico é o suficiente e irá ajudar a diminuir todos esses problemas? Então comecei a refletir como o vegetarianismo poderia ajudar. Podemos não conseguir fazer muito em cinco anos, mas pelo menos podemos fazer alguma coisa. Cheguei a algumas conclusões. A primeira delas é que temos que compreender que as coisas estão interligadas. Nossas ações individuais são importantes. O que fazemos, o que dizemos, o que pensamos tem um impacto. Se olharmos para um arquipélago, as ilhas todas parecem separadas, não é? Elas são separadas. Mas se mergulharmos fundo no oceano, veremos que as ilhas estão interligadas. Na verdade, elas não são ilhas, são montanhas. Ilhas são montanhas dentro do mar. Então, é claro que se olharmos para as coisas de modo superficial, que é o que a maioria das pessoas faz nos dias de hoje, vamos achar que tudo está separado. Por exemplo, religiões são separadas. Ontem fui a um encontro em Curitiba chamado Iniciativa das Religiões Unidas. Eram diversas religiões que se vêm como algo separado. O hinduísmo, o judaísmo, o cristianismo, o budismo parecem ilhas, mas no fundo estão interligados. Então as coisas que fazemos, que pensamos e dizemos estão interligadas com as coisas que outras pessoas fazem, dizem e pensam. Um exemplo dessa interconexão é o dióxido de carbono. Ele enche a atmosfera, as plantas o transformam em oxigênio, as pessoas e os animais respiram o oxigênio e devolvem o dióxido de carbono para a atmosfera, assim como as indústrias. Há outros ciclos, como o do nitrogênio, que também é importante para a respiração do animal. Um famoso historiador britânico do século passado, Arnold Toynbee, realizou um estudo com 21 civilizações que não deram certo. Ele concluiu que dois fatores levaram cada uma dessas civilizações ao fracasso. O primeiro foi muito poder e riqueza concentrado nas mãos de poucos. Por exemplo, hoje os três homens mais ricos do mundo têm mais dinheiro do que os 48 países mais pobres. Em todas as civilizações, havia muito pouca gente controlando o dinheiro, as indústrias e, conseqüentemente, os políticos. O segundo fator encontrado foi a incapacidade dessas 21 civilizações de mudar as coisas que precisavam de mudança a tempo. Eles até sabiam o que precisava ser mudado, mas não conseguiam fazê-lo. Eles não conseguiam enfrentar as conseqüências e ficavam presos em suas próprias crenças. Por exemplo, quando os espanhóis invadiram o México e começaram a matar as populações indígenas locais, os astecas tinham a crença de oferecer sacrifícios humanos aos deuses. Eles acreditavam que se oferecessem as melhores pessoas aos deuses, os deuses os ajudariam. Então, com a invasão espanhola, eles começaram a matar as pessoas mais inteligentes através do sacrifício humano até o ponto em que não sobrou mais nenhuma pessoa inteligente para fazer as coisas. E assim os astecas foram exterminados pelos espanhóis. Nossas crenças se voltam contra nós mesmos. Esses dois fatores se aplicam a qualquer outra época. Se observarmos a situação mundial hoje, veremos que ela promete ser bem difícil, especialmente depois das últimas eleições nos Estados Unidos. Eles não vão ajudar a reduzir o problema do dióxido de carbono na atmosfera, muito pelo contrário. Eles iniciaram a guerra e toda essa situação. É claro que eles não compreendem o que é ser “ecocêntrico” em vez de “egocêntrico”. Esse é o grande desafio. Então, ser vegetariano não significa apenas mudar sua dieta, mas também mudar sua atitude. Nesse caso, temos que entender que a palavra ecologia vem de “oikos” que significa “casa”. Quantas casas nós temos? A primeira está dentro de nossa mente. De que maneira eu vivo comigo mesmo dentro de minha própria consciência? Como está minha casa? A segunda casa é o corpo, a terceira é a família, a quarta casa é nossa comunidade, a quinta provavelmente é nosso país e a sexta casa é a própria natureza. Como é que estamos cuidando de todas essas casas? Há coerência entre a maneira como cuidamos de nossas mentes e a maneira como cuidamos de nosso planeta? |