Palestra de Caryn Hartglass

Sexta-feira - 15:00-16:00h – Sessão 1

Alimentos Geneticamente Modificados – Precisamos deles? Eles são seguros? (resumo)

A primeira questão é: esses alimentos são necessários?

O que escutamos dos cientistas, das corporações e dos governos que promovem os alimentos geneticamente modificados é que precisamos deles porque as pessoas passam fome no mundo todo e que os alimentos geneticamente modificados vão alimentar os que passam fome.

Essa é uma idéia muita bonita! Existe muita gente passando fome no mundo hoje, é triste, e seria maravilhoso criar algo para dar de comer a todos. Mas o problema não é o fornecimento de comida. Hoje temos uma abundância de alimentos. Nos EUA, por exemplo, no lixo de muitos restaurantes há comidas embaladas, que nunca foram abertas e foram jogadas fora assim mesmo! Há um movimento de pessoas chamado Freegans, a maioria jovens, que se alimentam desses desperdícios para provar que é possível se alimentar com saúde a partir do que as pessoas jogam fora. Então existe muita abundância de comida.

Mas isso vai mudar. E começou a mudar por outras razões. Há seis bilhões de pessoas no mundo e vai haver muito mais. O modo como produzimos os alimentos hoje não é sustentável, então vai ficar cada vez mais difícil alimentar a crescente população mundial. Hoje há uma abundância de comida e as pessoas passam fome, não porque falte comida, mas porque as pessoas são pobres, e existem razões políticas e econômicas para elas não terem acesso aos alimentos.

Então, mesmo que fôssemos capazes de criar alimentos geneticamente modificados saudáveis e seguros, mesmo se isso fosse possível, nós ainda não criamos uma estrutura e um sistema para alimentar os pobres. Se eles não têm dinheiro, não podem comprar comida. Se não têm terras, não podem produzir comida. Algumas décadas atrás, trinta ou quarenta anos atrás, quando tivemos a Revolução Verde, recebemos muitos dos mesmos argumentos de hoje para os alimentos geneticamente modificados. Nos falaram que precisávamos dos produtos químicos, agrotóxicos e pesticidas para aumentar os lucros, produzir mais comida e alimentar os que passam fome! E os famintos não foram alimentados.

O que o é realmente triste é que as corporações investiram muito dinheiro em pesquisa de alimentos geneticamente modificados. Esse dinheiro poderia ter sido usado para construir estradas, educar o povo, ensinar sobre agricultura sustentável e dar aos pobres a oportunidade de se alimentar de maneira nutritiva, com grande variedade de comidas saudáveis. Mas isso não é o que acontece hoje.

As corporações dizem que buscam alimentos geneticamente modificados para alimentar o povo. Então você pode se perguntar: desde quando as grandes empresas fazem alguma coisa para o bem da humanidade? Nós vivemos num mundo prioritariamente capitalista e as empresas trabalham para ter lucro, para ganhar dinheiro. Eles não vão ganhar dinheiro fazendo comida para os pobres. É um argumento que não faz sentido.

Mas o que faz sentido é que os alimentos geneticamente modificados são patenteáveis e se uma empresa registra uma patente, ela ganha dinheiro. É um mercado muito interessante para uma empresa controlar o fornecimento alimentício do planeta inteiro. Poucas corporações controlando as sementes de todo o planeta? Isso é assustador, mas é o que eles querem fazer.

Então, alimentos geneticamente modificados são necessários? Eu acho que não.

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A próxima pergunta é: os alimentos geneticamente modificados são superiores, melhores que os cultivados de modo convencional? Eles não testam se esses alimentos afetam nossa saúde ou se causam alergias. Eles não testam os efeitos nos insetos, pássaros ou pequenos animais que podem consumir esses produtos, não testam o que pode acontecer com o solo, com a água. Não observaram nenhum efeito a longo prazo dos alimentos geneticamente modificados. Nada disso foi testado. Isso é assustador para mim e deveria ser assustador para todos vocês.

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Existem vários tipos de alimentos geneticamente modificados que são categorizados de diferentes formas. Um deles, bastante popular, é produzido pela nossa empresa “favorita”: a Monsanto.

A Monsanto produz um herbicida chamado Roundup, feito com um produto químico chamado glifosate, muito tóxico, muito perigoso aos seres humanos e que causa defeitos de nascença, aborto e danos neurológicos. Não é um bom produto, mas muitos fazendeiros o usam.

Ele é usado para soja, milho e canola. E a Monsanto inventou versões geneticamente modificadas de grãos de soja, milho e canola que resistem a esse herbicida. Então você planta a soja deles, joga muito herbicida deles em cima que a plantação vai crescer e as ervas daninhas vão morrer. É brilhante para a Monsanto! Brilhante! Afinal eles têm a patente da semente e você tem de pagar para usar a semente. Quando faz a colheita da safra e das sementes, você não pode reutilizar as sementes, a não ser que pague pela patente para usá-las no próximo ano. Então você paga pelas sementes, mas também tem de pagar pelo herbicida que põe nas sementes. Portanto, isso é ótimo para a Monsanto.

E o problema é que, com o passar do tempo, o mato que cresce ao redor da soja, do milho e da canola aprende a ser resistente ao herbicida. A natureza é inteligente, muito mais do que o ser humano. E por isso os agricultores precisam colocar mais herbicida nelas, poluindo ainda mais o solo e a água. E a Monsanto ganha novamente, ganha mais dinheiro, porque vende mais herbicida.

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Há um outro tipo de alimento geneticamente modificado, que não necessita de pesticidas, pois a planta cresce com o pesticida dentro dela. Ela foi modificada para crescer com seu próprio pesticida. Que maravilhoso isso: quando você colhe a safra, colhe também um pouco daquele pesticida em cada mordida. O tipo de pesticida mais usado é o BT, em geral no milho, que mata diferentes insetos que tendem a atacar o plantação. Ele tem algum sucesso matando esses insetos, mas o que acontece com os insetos que não comem o milho, mas que comem os insetos que comem o milho? O que acontece os pássaros que comem os insetos que comem os pesticidas? O que acontece com eles?

É lógico que as empresas que promovem esse produto vão dizer que nada acontece, que está tudo bem e seguro. Mas nós não sabemos se isso é verdade. E cada vez mais, observamos sinais de que há um efeito destrutivo sobre a vida selvagem, insetos, pássaros e animais.

É muito difícil observar o impacto no ser humano, sem fazer experimentos controlados, que ainda não foram feitos. Como as pessoas comem diferentes tipos de comida e têm estilos de vida variados, é difícil determinar o que causa alergia, náusea, dor de cabeça ou algum problema físico. É difícil dizer que isso foi causado pelo milho ou pela soja que elas comeram. É difícil rastrear isso.

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Um exemplo disso são os grãos de soja. Quando eles foram introduzidos no mercado do Reino Unido, houve 50% de aumento nos casos de alergia com soja naquela época. Mas nenhum estudo crítico foi feito com grupos controlados e testados. Contudo, observando a saúde da população naquela época, tudo aponta para alimentos geneticamente modificados.

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PERDA DE BIODIVERSIDADE

Outro lado negativo dos alimentos geneticamente modificados é criar monoculturas e reduzir a biodiversidade. A natureza criou a biodiversidade, muitas espécies animais e vegetais, e nós precisamos dessa diversidade por vários motivos.

Vocês todos lembram da fome na Irlanda, quando eles não conseguiam plantar batatas. Quando se tem um único tipo de batata ou planta, uma monocultura, e um inseto ou vírus destrói a plantação, perde-se tudo, mas se você usa diferentes tipos de batatas, é provável que não perca tudo, apenas um ou dois tipos. E essa é a beleza da biodiversidade, que apresenta variados sabores em batatas diferentes, além de proteger nosso fornecimento de comida contra os vírus e os insetos.

Os alimentos geneticamente modificados querem fugir da biodiversidade. Querem que tenhamos um só tipo de soja, de batata, de milho. Que chato nossos pratos serão! E mesmo que nos digam que vamos precisar de menos pesticidas e que as plantações serão mais resistentes, não há garantia de que suportaremos o mato ficando mais forte, vírus e insetos tornando-se mais espertos e acabando por destruir essas culturas. E se só estivermos produzindo esse tipo de cultura, não teremos mais comida. Portando, a monocultura não é uma coisa boa e os alimentos geneticamente modificados estimulam a monocultura.

Nos EUA, nós não temos idéia de quais produtos são ou não são geneticamente modificados. Há anos muitas pessoas pedem e exigem do governo que esses produtos tenham etiquetas, para que possam escolher de forma consciente. Assim, se você quiser comprar algo geneticamente modificado, tudo bem, desde que saiba o que está comprando. Mas nós não sabemos, pois o governo insiste em dizer que não há necessidade de etiquetar esses produtos. Qual o argumento do governo? Que os alimentos geneticamente modificados não precisam ser etiquetados, pois são exatamente iguais aos produtos convencionais. “Não precisamos etiquetá-los, pois eles são iguais”.

Por outro lado, eles afirmam que os geneticamente modificados são mais nutritivos, resistem a pesticidas e a variações climáticas e têm várias propriedades benéficas. Então, por um lado eles dizem que o alimento é igual ao convencional, mas por outro dizem que é diferente. Alguém não está falando a verdade! Nós realmente gostaríamos de ter etiquetas em nossos produtos.

Coisas diferentes têm acontecido em países diferentes e eu torcia para que a Europa mantivesse uma posição firme contra os alimentos geneticamente modificados. Por muito tempo, a Europa não permitiu produtos geneticamente modificados, mas agora eles abriram um pouco os portões e alguns produtos estão entrando, infelizmente. Esperamos que os consumidores estejam muito mais cientes dos perigos dos desses alimentos e que os produtos sejam etiquetados. Muitos supermercados lá se recusam a estocar produtos geneticamente modificados em suas prateleiras e isso é bom. Assim, a Europa pode até regulamentar esses produtos, mas ninguém vai comprá-los e nenhum supermercado vai estocá-los. Isso pode proteger a Europa desses produtos.